domingo, 30 de maio de 2010
ENTREVISTA A ISABEL FURINI
Chá das Cinco com o Vampiro está agitando Curitiba. Nesses últimos meses ouvi aquele burburinho sobre o autor dessa obra - o escritor, professor e crítico literário Miguel Sanches Neto. O pessoal emite conceitos tão diferentes sobre ele, do tipo "esse cara é um grande escritor", "ele é um oportunista", "ele é honesto demais", que decidi entrevistá-lo e criar minha própria opinião. Queria conhecer o trabalho de Sanches Neto e comecei com Venho de um País Obscuro e Pisador de Horizontes. Fiquei apaixonada por dois poemas desse livro: "Difícil Aceitar" (pág.143) e "Poema para a Menina sem asas" (Pág. 45). Esses versos expressam sua revolta contra os clichês e terminam com alto grau de lirismo e sensibilidade. Imediatamente procurei Chove Sobre Minha Infância. O livro é realmente envolvente. Quando o menino pobre insiste em estudar e é enviado para o colégio, lemos: "Os pais estão longe, não podemos contar com os professores e com os empregados. Temos que sobreviver no meio de um jogo de poder em que fala mais alto quem pode mais..." (pág.137). Talvez Miguel Sanches Neto tenha vislumbrado o mesmo jogo de poder nos meios literários.
Quando enviei e-mail minha primeira surpresa foi a receptividade. Ele aceitou a entrevista. Em segundo lugar, fiquei admirada com sua honestidade. Ele não fugiu das perguntas. Nem respondeu com frases retóricas. Miguel Sanches Neto foi direto, objetivo, e suas respostas revelam um escritor que analisa seu próprio processo criativo friamente, sem autoelogios e sem sentimentalismo.
Essa honestidade podemos também perceber nos livros Chove sobre minha infância e Venho de um país obscuro; neste último, fala: "Minha mãe comprava um único pão, repartindo-o entre quatro bocas" (Pág. 13); "Minha vó lavava roupas para fora e sempre trazia alguma sobra" (Pág.17); "O padrasto me ensinou a ser correto, a não mentir, não furtar e todo o resto, mas exigindo ser obedecido em tudo, reduzindo-nos a passivos súditos" (pág. 20).
Mas, atualmente, o livro de Sanches Neto que desperta mais interesse é Chá das Cinco com o Vampiro, por isso começamos a entrevista com uma pergunta sobre esse livro.
1) Como foi gestado seu novo livro Chá das Cinco com o Vampiro?
Este romance nasceu de um projeto de criar um universo paralelo ao universo literário curitibano dos anos 90. Eu tive uma percepção de que havia muitos personagens possíveis naquele meio. Era um momento - começo dos anos 2000 - em que eu tinha me desiludido com a vida literária, então havia um sentimento forte de frustração nos meus projetos de viver num ambiente literário. Foi neste contexto que nasceu o livro, onde uso e abuso da ficção para fazer um painel não do meio literário de Curitiba, mas do meio literário a partir de Curitiba.
2) Você foi criando os personagens e escolhendo como modelos escritores paranaenses ou, ao contrário, os personagens foram aparecendo na sua mente, criando-se sozinhos, como Minerva na cabeça de Zeus?
Eu queria contar uma trajetória e contar um ambiente, então foi esta espinha dorsal - a ida de um jovem problemático para a capital, a construção de uma outra possibilidade de ser, a solidão daquele que sai de seu território, a ilusão de uma vida no grande monde, e rompimento total com tudo a partir da primeira experiência existencial forte - a morte de uma pessoa amada. Em torno disso nasceram personagens que ora estão mais próximos do mundo factual, ora mais distantes - mas que são sempre personas ficcionais.
3) Você pensou e escolheu o enredo, ou "foi escolhido pelo enredo", a história foi tomando corpo sozinha, sem sua vontade.
Num primeiro momento, havia só o impulso para escrever, e fiz algumas tentativas soltas. Quando achei o caminho, estruturei muito rigorosamente o enredo - fiz uma planta baixa. Ao alternar tempos, criei a possibilidade de estabelecer confrontos. Em Pebiru, o personagem vive uma coisa que só terá resposta no outro tempo, já em Curitiba - e fui montando estes paralelismos, muitas vezes usando a ironia.
4) Você já escreveu livros de gêneros diferentes como Impurezas Amorosas (crônicas), Venho de um país obscuro (Poesias), Contos para ler em viagem, Contos para ler no bar, o romance Chove sobre minha infância, e outros. Qual destes gêneros você prefere? E qual de seus livros lhe deu maior satisfação escrever?
Eu me encontro mais no romance, pois o romance apresenta uma oportunidade de dizer mais, de ampliar as discussões, e exige mais do autor também, pois não é possível escrever uma história com proporções tão dilatadas com um envolvimento pequeno, tanto de tempo quanto de energia psicológica. O romance é, para mim, como eu já disse em alguns lugares, um resumo de todos os gêneros literários. Você pode se valer de outras formas textuais para compor o romance, e esta liberdade me agrada muito. O livro que me deu maior alegria na escrita foi Chove sobre minha infância (2000), meu livro de estréia nacional, onde eu passo a limpo, ficcionalmente, a história de minha família. Foi um livro produzido em apenas um mês de dedicação exclusiva.
5) Podemos entender que seus enredos e personagens partem da realidade, mas que nunca permanecem lá. A realidade é só o ponto de partida. Isso pode confundir um pouco os leitores - pensam que seu livro é "quase histórico", quando na realidade estão lendo pura ficção. Sente-se incomodado por essa confusão de alguns leitores e críticos?
Ficção é por natureza um terreno movediço, você não tem muitas certezas neste espaço. Eu trabalho numa espécie de radicalização do conceito de não-ficção. Tudo parece muito real, e há uma dose de realismo muito grande, mas eu não facilito para o leitor, eu tento enganá-lo, ou criar uma confusão. Que alguns leitores caiam neste equívoco eu acho normal, o que me estranha é que críticos e escritores que escrevem sobre livros valorizem apenas o factual em meus livros, um falso factual. A literatura não é uma área para leitores ingênuos, ela exige uma capacidade imaginativa muito grande. O problema é que a humanidade como um todo está perdendo a sua capacidade de imaginar, porque os meios de comunicação valorizam excessivamente a realidade, então o leitor quer ler tudo como realidade. Isso faz com que a literatura assuma mais do que nunca o seu caráter fantasioso.
6) Que conselho daria aos novos escritores?
Que nunca deixem de ler muita literatura, pois não há outro caminho para a construção de um estilo, de uma voz, de uma visão do mundo, do que lendo a literatura que nos antecedeu. Escrever deve ser sempre um subproduto da leitura, uma forma de unir nosso nome a uma tradição, nem que seja negando-a.
sábado, 22 de maio de 2010
ROMANCE DA DEFORMAÇÃO
Por Júlio Pimentel Pinto (http//paisagensdacritica.wordpress.com/)
Chá das cinco com o vampiro nasceu e vive sob o signo da polêmica.
Para alguns dos defensores, o mérito é revelar, com tintas carregadas, o quotidiano literário curitibano dos anos finais do século XX, expondo sua endogamia e as idiossincrasias de quem o centralizava, Dalton Trevisan.
Para os críticos, o demérito do livro é trocar a literatura pela mexerico. Alguns foram mais longe e o acusaram de destilar ressentimento e buscar evidência às custas de uma celebridade literária.
Li o livro logo que saiu e, desde então, acompanhei as resenhas. Acompanhei também o blog que Miguel Sanches Neto, o autor, criou para responder a críticas. Passados dois meses, confesso duas coisas: primeiro, que não alinho minha leitura em nenhuma das trincheiras; segundo, que acho que o livro ainda não foi lido pelo prisma da literatura.
Sim, sei da presunção que a segunda constatação encerra: dispor-me a ler o que outros, e mais qualificados, não leram. Se assim a entenderam, por favor, me desculpem. Ocorre que vivemos num país afeito a polêmicas, lugar em que facilmente se toma a discordância por ofensa pessoal, ambiente tantas vezes hostil ao dissenso — por mais que preguemos nossa tolerância e até encontremos um ou outro exemplo histórico a confirmá-la.
Parte de nossa imprensa cultural instiga o confronto e prefere sangue a ideias, sedenta de uma vendagem maior. Foi assim, para ficar num só caso, que dois dos maiores intelectuais brasileiros, lá pela metade da década de 1980, trocaram xingamentos. O jornal vendeu feito água e nós, leitores, ficamos sabendo que um era “doente e cretino” e o outro… Deixemos para lá.
Em bom português, sob a aparência da tolerância, nosso universo cultural é quase sempre mesquinho, encerrado em grupinhos e clubes semi-secretos, que fazem tanto bem à vaidade de seus integrantes quanto mal à produção cultural geral.
É isso que o livro de Sanches Neto expõe. Sinceramente não me interessa se o alvo conjuntural é Trevisan e se outros intelectuais estão ali, travestidos em personagens mais ou menos dignos.
Não leio ficção — e sempre alerto meus alunos para que também não o façam — como jogo de espelhos da realidade. Vale lembrar que continua válida a célebre distinção, de vinte e poucos séculos, que lembra que o compromisso da ficção é com a imaginação, não com o que efetivamente se passou.
Tampouco me importa quais são as estratégias de fulano ou de beltrano para obter sucesso ou os acertos de contas que o passado por ventura legou ao presente. Até intuo que não é o caso — a obra de Sanches Neto é suficientemente sólida para que dispense atalhos. Simplesmente leio e, ao ler, avalio — com critérios certamente questionáveis, mas pouco a pouco consolidados em mais de quarenta anos de vida entre livros — o que está à minha frente. Dimensões pessoais, ideológicas ou demais elementos alheios ao que está nas páginas do livro, a princípio, não me interessam.
Foi assim que li Chá das cinco com o vampiro. Foi assim que encontrei mais coisa por lá, além do diagnóstico sombrio acerca da acrítica idolatria literária, além da exposição algo crua sobre a arrogante e anacrônica hierarquia linear dos grupelhos culturais.
Lá encontrei uma das chaves da discussão literária: o contraste entre personas literárias. De um lado, o instável narrador; de outro, o vampiro — que ultrapassa, como personagem, a metáfora do título que o caricatura como decadente. O narrador quase inexiste como tal: ele busca ser escritor, mas só o é de forma bissexta. O vampiro já foi um grande escritor e aos poucos se dilui nas mimetizações que outros e ele mesmo fazem de seus grandes textos.
O confronto é óbvio: enquanto um se constrói, outro se desfaz. O narrador não é pleno, nem sua formação se completa. Seu universo íntimo é identicamente mofino e a carreira literária, frágil e errática. Mais do que escritor, ele se faz leitor obsessivo, mas o imenso repertório não se traduz em obra consistente.
O reconhecimento da obra do vampiro, por sua vez, o fecha num labirinto, do qual não consegue, ou quer, escapar: a figura pública, como sempre, ultrapassa o sujeito comum e sua mesquinharia o atordoa – mais, inclusive, do que mexe com seus seguidores ou leitores, que fácil e prazerosamente substituíram o homem pelo mito. E as limitações prosseguem: o suposto experimentalismo dos textos escritos depois da fama, expresso na concisão de seus escritos, pode esconder apenas a repetição e a mesmice — ele sabe disso, mesmo que a crítica prefira fechar os olhos.
Ambos mostram paradoxos do ofício literário. São espelhos distorcidos do sonho da consagração cultural, e acabam igualmente derrotados: um, no mundo empoeirado das bajulações gratuitas; outro, pelo retorno às origens pessoais que negavam seu desejo literário.
O livro de Sanches Neto tem muitos méritos e comprova o domínio técnico que seus escritos anteriores já revelavam. Mas, longe das inconfidências que tantos preferiram destacar — e independentemente, repito, de sua ocasional veracidade —, ele traz algo assustadoramente incomum na ficção brasileira atual: mostra os rumos da deformação literária. Um romance de formação às avessas, e extremamente necessário.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
INTERESSE LITERÁRIO
Na semana passada, recebi umas poucas perguntas de Dellano Rios. Estou meio cansado de dar entrevistas, mas este livro exige que eu tente diminuir ao máximo as incompreensões coladas a ele. Não estou reclamando, prefiro que ele seja incompreendido a ter ficado na gaveta. Tenho me esforçado para evitar a participação em programas de televisão e de rádio para falar sobre o livro, mas respondo a todas as perguntas que me chegam por e-mail.
Nas de Dellano, notei uma preocupação com o livro e não com a polêmica. O resultado é o belo artigo que ele escreveu hoje no Caderno 3, do Diário do Nordeste.
O autor se sente pacificado quando o leitor lê o seu livro com um autêntico interesse literário.
Abaixo, um trecho do artigo:
"Estilisticamente, trata-se de um livro marcado pela precisão. O tom confessional do narrador, surpreendentemente, não o torna um verborrágico. Não há espaço para palavras desnecessárias. Sanches Neto busca certa precisão que figura em obras como a de Ruben Fonseca e Dalton Trevisan, no Brasil; e Cormac McCarthy, nos EUA.".
Leia o artigo na íntegra em: http://vai.la/Mxr
Nas de Dellano, notei uma preocupação com o livro e não com a polêmica. O resultado é o belo artigo que ele escreveu hoje no Caderno 3, do Diário do Nordeste.
O autor se sente pacificado quando o leitor lê o seu livro com um autêntico interesse literário.
Abaixo, um trecho do artigo:
"Estilisticamente, trata-se de um livro marcado pela precisão. O tom confessional do narrador, surpreendentemente, não o torna um verborrágico. Não há espaço para palavras desnecessárias. Sanches Neto busca certa precisão que figura em obras como a de Ruben Fonseca e Dalton Trevisan, no Brasil; e Cormac McCarthy, nos EUA.".
Leia o artigo na íntegra em: http://vai.la/Mxr
domingo, 9 de maio de 2010
QUE MONSTRO QUE EU SOU!
Como contraponto, é interessante ler o texto do jornalista Schneider Carpeggiani, que passou pelo Paraná e aproveitou para comentar o livro e descer o pau no autor. Ele diz que falo de minha vida sexual no romance, demonstrando que leu o livro como reprodução fiel de vivências. Sinto informar: nada da vida sexual de Beto Nunes tem a ver comigo. Eu quis construir um personagem baseado nos tarados que povoam o imaginário moderno. É ficção nua e crua.
Em um ensaio genial sobre Goethe (Editora 34, 2009), Walter Benjamin fala que duas são as posturas críticas diante de uma obra: buscar o teor factual ou o teor de verdade. O teor factual não tem a menor importância. O que acontece em termos de enredo só serve para levar o leitor a apreender uma verdade oculta sobre o conjunto de fatos apresentado. É este valor mítico de todo texto que determina ou não a sua permanência. Esta verdade não é de ordem histórica, sociológica ou biográfica, mas de natureza simbólica. É preciso ir além da referencialidade para tentar determinar a validade ou não de um livro como literatura. Por favor, não estou dizendo que meu livro tenha este valor, apenas reafirmo que o teor factual desta obra não tem a menor importância.
Esta leitura externa destrói a minha tese de que meu livro será melhor lido fora do Paraná.
Abaixo, o link da matéria em que apareço como um "monstro de escuridão e rutilância". Engraçado que o artigo recai nos mesmos defeitos que ele aponta em meu livro, uma tendência para a fofoca:
http://www.exkola.com.br/scripts/noticia.php?id=31129454
Em um ensaio genial sobre Goethe (Editora 34, 2009), Walter Benjamin fala que duas são as posturas críticas diante de uma obra: buscar o teor factual ou o teor de verdade. O teor factual não tem a menor importância. O que acontece em termos de enredo só serve para levar o leitor a apreender uma verdade oculta sobre o conjunto de fatos apresentado. É este valor mítico de todo texto que determina ou não a sua permanência. Esta verdade não é de ordem histórica, sociológica ou biográfica, mas de natureza simbólica. É preciso ir além da referencialidade para tentar determinar a validade ou não de um livro como literatura. Por favor, não estou dizendo que meu livro tenha este valor, apenas reafirmo que o teor factual desta obra não tem a menor importância.
Esta leitura externa destrói a minha tese de que meu livro será melhor lido fora do Paraná.
Abaixo, o link da matéria em que apareço como um "monstro de escuridão e rutilância". Engraçado que o artigo recai nos mesmos defeitos que ele aponta em meu livro, uma tendência para a fofoca:
http://www.exkola.com.br/scripts/noticia.php?id=31129454
NOVA RESENHA
Ocupado por conta de outros projetos, tenho postado pouco. Mas mexendo na internet hoje, encontrei a resenha de Milton Ribeiro sobre o Chá das cinco. Aos poucos, o livro vai sendo compreendido nas suas intenções centrais. As leituras de fora do Paraná talvez entendam o livro melhor, de forma menos colada ao cenário local.
Daqui para frente, o livro vai depender essencialmente das leituras veiculadas na internet. Está no fim o tempo que a grande mídia destina a um livro - os lançamentos têm uma validade máxima de 3 meses, e só reaparecem nas páginas dos jornais se acontecer algum fato novo em torno deles.
No link abaixo, a resenha:
http://miltonribeiro.opsblog.org/2010/05/04/cha-das-cinco-com-o-vampiro-de-miguel-sanches-neto/
Daqui para frente, o livro vai depender essencialmente das leituras veiculadas na internet. Está no fim o tempo que a grande mídia destina a um livro - os lançamentos têm uma validade máxima de 3 meses, e só reaparecem nas páginas dos jornais se acontecer algum fato novo em torno deles.
No link abaixo, a resenha:
http://miltonribeiro.opsblog.org/2010/05/04/cha-das-cinco-com-o-vampiro-de-miguel-sanches-neto/
segunda-feira, 3 de maio de 2010
PERDER A GUERRA
Paulo Briguet publica entrevista na revista Winkmag, de Londrina. A conversa por e-mail foi agradável, antecedida pela leitura e compreensão da obra - coisa que nem sempre acontece, infelizmente. O resultado me agradou muito.
Para acessar a revista http://www.winkmag.com.br/
Para acessar a revista http://www.winkmag.com.br/
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